Dia Mundial da Água 2016<br>– trabalho, natureza, água

Luísa Tovar

«Aproveitando uma experiência ampla, e às vezes cruel, confrontando e analisando os materiais proporcionados pela história, vamos aprendendo pouco a pouco a conhecer as consequências sociais indirectas e mais remotas de nossos actos na produção, o que nos permite estender também a essas consequências o nosso domínio e o nosso controlo.

Contudo, para levar a termo esse controle é necessário algo mais do que o simples conhecimento. É necessária uma revolução que transforme por completo o modo de produção existente até hoje e, com ele, a ordem social vigente.»1

Proposto pelas Nações Unidas, celebra-se em 22 de Março o Dia Mundial da Água, este ano com o tema «água e trabalho».

Na apresentação refere-se que ¾ dos empregos são «dependentes» da água, indiciando uma oposição entre Trabalho e Natureza, o que é falso, como se a vida e actividade humana, no seu todo e na sua actuação inteligente, fosse inerentemente um parasita «contra-natura».

A aberração «contra-natura» não é a espécie humana, maravilha suprema de evolução na Natureza, mas o sistema de produção imposto pelo capitalismo, que destrói aceleradamente os suportes da vida humana – a Natureza e os Trabalhadores.

O homem é parte da Natureza e a água atravessa toda a actividade humana; água e trabalho combinam-se com outros materiais da Natureza na enorme maioria dos processos produtivos.

Usamos água na produção mais essencial, os alimentos: agricultura, pecuária, pesca, aquacultura; usamos também no abastecimento de água e saneamento, combate a incêndios, lavagem de ruas e de espaços públicos, hospitais, escolas, hotelaria, restauração, manutenção de fontes, jardins públicos, piscinas, balneários.

Produzir energia eléctrica mobiliza enormes volumes de água e não só nas hidroeléctricas, mas também na refrigeração de centrais térmicas e nucleares, em que as águas de refrigeração são devolvidas ao meio frequentemente contaminadas com outras substâncias e sempre mais quentes, o que tem efeitos negativos no meio receptor.

As indústrias extractivas também são exigentes em água, gerando águas residuais muito agressivas, incorporando minérios e resíduos de substâncias usadas para a extracção.

Quase toda a indústria transformadora usa água no processo, incorporando-a ou não no produto final: como meio para produzir reacções entre componentes, para lavagens, para diluição/separação ou combinação de substâncias ou componentes, para refrigeração. Indústrias agro-alimentares, petroquímicas, galvanoplastias, olarias, fabrico de componentes electrónicas, lentes, têxteis, curtumes, cortiças, muitas e muitas outras usam e têm efeitos na água.

A água tem um papel fundamental nos processos físicos, químicos e biológicos globais do planeta; é factor de clima; é suporte essencial de todos os ecossistemas, incluindo o humano. É móvel e continuamente reutilizada em sucessão, numa interacção contínua.

As utilizações da água, assim como as alterações dos solos e da atmosfera – alteração do coberto vegetal e da arborização, aumento de áreas impermeáveis, diminuição ou aumento da capacidade de armazenamento de água, alteração das superfícies de evaporação, obstáculos e mudanças aos percursos das águas, determinadas emissões para a atmosfera – repercutem-se no ciclo e qualidade das águas, nas vidas e nos processos que delas dependem.

Milénios de experiência e os rapidíssimos avanços da ciência e da tecnologia nos últimos séculos ensinaram-nos a controlar os efeitos das nossas acções na Natureza. Mais lentamente, aprendemos também muito sobre as consequências sociais dos nossos actos.

Mas não basta conhecer. É preciso pôr em prática.

É precisa uma administração dos processos produtivos orientada para o interesse comum, um desenvolvimento humano em harmonia com a natureza, numa visão de longo prazo, sólida, integrada e planeada.

É precisa uma revolução completa do sistema de produção e da ordem social vigente.

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1 Engels, Dialéctica da Natureza, «O papel do trabalho na evolução do macaco ao homem»




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